Sem internet, agro “tech” tem dificuldades para avançar no Brasil

O Brasil está atrás apenas dos Estados Unidos, Índia e China no ranking mundial de usuários de internet, com 120 milhões de pessoas conectadas. O dado divulgado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento pode nos dar a impressão de que todos os brasileiros desfrutam da conectividade, o que não é verdade. Levantamento do Comitê Gestor de Internet revela que apenas 26% das áreas rurais desfrutam de acesso à internet. Sem conexão adequada, o Brasil do agro “tech” atrasa ou avança mais lentamente do que poderia.

Nos últimos 15 dias estive em viagem por Mato Grosso, maior estado produtor de grãos do Brasil e líder na pecuária de corte. Lá a riqueza do agro ajuda a desenvolver as cidades, gera emprego e oportunidades, mas não atrai investimentos suficientes do setor de telecomunicação e a internet é escassa, lenta ou muitas vezes nem funciona. Na tentativa de garantir a minha conectividade aumentei o meu pacote de dados e paguei mais por isso, mas não foi suficiente, continuei sem acesso. Pagar por um serviço não significa que ele vá ser entregue, como não foi no meu caso e de tantos outros moradores do interior do Brasil.  A banda larga móvel é insuficiente e não atende às demandas das empresas de tecnologia e de um setor como o agro, que a cada dia investe milhões para se modernizar e ser mais eficiente.

A pesquisa Tecnologia da Informação no Agronegócio, divulgada meses atrás pelo Sebrae, mostrou que os produtores estão cada vez mais empenhados em agregar valor aos negócios por meio de sistemas digitalizados. No entanto, os investimentos em máquinas e equipamentos não expressam todo o potencial porque nos talhões da lavoura é praticamente impossível contar com acesso à internet. O mais comum é ter conexão na sede da fazenda, o que limita a funcionalidade tecnológica de maquinários e aplicativos.  No estudo, os pesquisadores quiseram saber por qual motivo muitos produtores não utilizam a Internet móvel (3G/4G) e a resposta dos agricultores de Mato Grosso, por exemplo, é que não há provedor no local ou o sinal da região é ruim.

No Brasil, a carência de investimentos nesta área freia o avanço do agronegócio enquanto em países desenvolvidos a chamada Internet das Coisas (do Inglês Internet of Things, IoT) já é uma realidade, na qual sensores, programas de análise e sistemas de alerta se integram para garantir a melhor utilização dos recursos e maximizar a produção. Por aqui, embora a revolução digital já tenha começado, ainda vai demorar para a verdadeira revolução digital fazer parte da realidade do campo todo. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), há 2.118 municípios, o equivalente a 38% do total, ainda desprovidos de uma rede de longa distância com tecnologia de fibra ótica. Isso quer dizer que as redes locais são de baixa capacidade, lentas e instáveis. Segundo a Anatel a realização de investimentos nos serviços de telecomunicações não faz parte das competências atribuídas à agência pela Lei Geral de Telecomunicações (LGT).  O serviço de Internet fixa é prestado em regime privado, ou seja, os aportes de capital dependem do plano de negócio das prestadoras.

O fato é que a estrutura deficiente e a negligência de empresas do setor de telecomunicações estão reduzindo o potencial dos softwares de gestão de propriedades, gerando perdas de oportunidade e segurando o ímpeto de inovação visto em centenas de empresas rurais. Urge que a internet funcione bem no interior do Brasil para decolarmos rumo à agricultura digital, rumo ao agro “tech”  de verdade.