Agricultura digital: é hora de investir?

A despeito das discussões sobre alta de impostos, crise fiscal e financiamento público de campanha política que tomaram nossa semana, há uma revolução em curso no país. Ela avança mesmo com a crise, mesmo com a carência de infraestrutura, ela já é real e atrai investimentos bilionários. Além disso, promete melhorar a vida de muita gente na agricultura e pecuária brasileira a que chamamos o fenômeno digital da internet das coisas.

O campo está conectado, mas ainda carece de investimentos para que a revolução que se ensaia aconteça verdadeiramente. Só para ter uma ideia, 96% dos produtores rurais utilizam telefones celulares, mas a maioria ainda não realiza a gestão dos negócios usando a internet do smartphone. Os dados são do Sebrae, que entrevistou mais de 4.400 produtores em todo o Brasil. E por que a ferramenta ainda é pouco usada? Conectividade é a resposta, ou melhor, a falta de. O dado não choca, basta viajar um pouco pelo interior do país e sentir na pele a dificuldade em manter uma boa conexão com a internet.

E por que falar disso agora? Um dos motivos é porque nunca se investiu tanto em soluções digitais na agricultura como agora, só entre 2014 e 2016 cerca de US$ 10 bilhões foram aplicados em soluções digitais, de acordo com dados da Agfunder. No entanto, boa parte desse volume ficou concentrado no vale do Silício, nos Estados Unidos. No Brasil ainda há um longo caminho a percorrer, mas passos largos estão sendo dados e é o setor privado que está tomando a iniciativa e desembolsando investimentos bilionários para que dados sejam coletados e transferidos em tempo real do campo para os smartphones.

Os mais críticos podem estar pensando: com tantos desafios para tentar ter rentabilidade na pecuária ou agricultura, lá é hora de falar em internet das coisas em plena crise? Confesso que também pensei nisso. No estica e puxa para fazer as despesas caberem no orçamento das propriedades, como investir?

“O uso de sensores, robótica e inteligência artificial vão ser fundamentais no incremento de produtividade e na otimização de insumos na agricultura e isso explica todo esse investimento em meio a um cenário mais desafiador dos preços das commodities. O agricultor terá com essas tecnologias, condição de tomar melhores e mais rápidas decisões, que o ajudarão aumentar sua eficiência na produção de alimentos, especialmente nesses ciclos de baixa”, explica Mateus Barros, líder comercial da Climate para América do Sul.

A lógica é simples. Quanto mais dados, mais fácil identificar onde estão os problemas seja de solo, de produtividade, de saúde do rebanho. A sustentabilidade do negócio depende cada vez mais do digital, afirmou o doutor em Ciência do Solo pela Universidade Federal de Santa Maria, Antônio Luis Santi. Segundo ele, é o acesso aos dados que vai diferenciar a escolha da semente, do investimento e pode garantir mais lucro no médio e longo prazo. Ficou claro que imediatistas não vão concordar com ele, já aqueles com visão holística do processo tendem a ficar inclinados a colocar a mão na massa.

E já com a mão na massa estão pelo menos duas grandes multinacionais, que lançaram comercialmente softwares com a proposta de captar os dados (até sem internet, já que muitas vezes ela mal funciona) e transferi-los para as sedes das fazendas e celulares. A alemã Bosch, estreou no agronegócio com investimentos na pecuária e lançou um sistema que permite medir a engorda de gado em tempo real com um sensor colocado na orelha do boi que faz o rastreamento do animal. A norte-americana Monsanto anunciou a plataforma Climate Fieldview, de monitoramento de lavouras em tempo real. O sistema está sendo utilizando por mais de 100 produtores em caráter experimental no Brasil. Nos Estados Unidos, essa mesma plataforma já é utilizada por 100 mil agricultores com 35 milhões de hectares cobertos.

A internet das coisas já está no campo, mas ainda é usada por um grupo seleto de produtores de ponta que já garantem acertar mais nos negócios do que antes do uso do big data. A democratização dessas ferramentas, inevitavelmente, vai ganhar velocidade e não me surpreende que isso ocorra mesmo com a falta de investimentos públicos que ainda travam o acesso da internet à maioria das pessoas.

A agricultura digital é um caminho sem volta, cedo ou tarde a maioria vai acabar aderindo a ela. Como eu já disse, a despeito das discussões sobre alta de impostos, crise fiscal e financiamento público de campanha, o que me causa espanto é o quanto estamos preocupados com os governos, que pouco fazem sua parte, enquanto poderíamos dedicar mais nossa atenção ao que avança independentemente da política.

O meu desejo é que não percamos a capacidade de observar o que ainda dá certo no Brasil. Tá aí um belo exemplo do quanto mesmo na crise tem gente aproveitando oportunidades para investir, melhorar e aos poucos democratizar o uso da internet no campo e fora dele.

Para mais informações sobre conectividade na pecuária, veja a entrevista exibida no Mercado & Cia: