O pecuarista e a estratégia do pediatra: como assegurar a eficiência na hora de vacinar

Maior qualidade, menor risco e mais controle: se perguntarmos a qualquer vaqueiro, mesmo que com mudanças significativas no jeito de falar, estas certamente serão as principais condições listadas por eles para classificar o manejo perfeito na hora da vacinação. O conteúdo é pertinente, tendo em vista a proximidade da campanha nacional de imunização contra a febre aftosa (que começa em maio, mas já acontece em alguns estados da Federação, casos de Amazonas, Pará, Roraima e Rondônia, a partir de 15/04 neste caso).

 

+ Clique e veja o calendário oficial de vacinação contra aftosa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

 

Por isso, o tema se tornou pauta principal do Giro do Boi em abril, o que nos levou a agendar para esta quinta, 13, entrevista com uma das principais referências brasileiras quando o assunto é boas práticas, o zootecnista Mateus Paranhos, professor da Unesp de Jaboticabal-SP, mestre, doutor e pós-doutor especializado em bem-estar animal. Entre estas dicas levantadas pelo professor para garantir a eficiência da campanha que se aproxima está uma comparação inusitada: para o ele, o pecuarista pode lançar mão da mesma estratégia do pediatra para com seus pacientes, ou seja, oferecer pequenos “agrados” aos animais, mais ou menos como funciona um pirulito para as crianças.

 

O objetivo é claro, reduzir a reatividade do bovinos. Como alertou Paranhos, o comportamento agitado pode trazer problemas graves. “Animais estressados têm a resposta imune deprimida. A reação à vacina é abaixo da esperada e ele não estará protegido contra agente infeccioso“, declarou o professor durante a conversa com o apresentador Mauro Sérgio Ortega.

 

“Animais estressados têm a resposta imune deprimida”, salientou Paranhos.

 

Entre os “agrados” listados pelo professor está a oferta de sombra, água e alimento durante o período em que o animal está dentro do curral. “O pessoal me pergunta quantos quilos de ração, mas não importa, é pouco mesmo, só para o animal lamber”, simplificou o pesquisador. Segundo Paranhos, quando o pecuarista faz uso desta estratégia, ele está ensinando ao animal que algo de bom vai acontecer, o que minimiza os efeitos negativos que geralmente acompanham a condução dos lotes até os currais.

 

E falando sobre este caminho pasto-curral, o ideal é preparar a estratégia bem antes de executar o manejo. Isto porque se a etapa não for bem pensada, desde a formação dos lotes, a campanha da fazenda está em risco. Paranhos destacou que grupos muito grandes, que lotam os currais, são indesejáveis, aumentam o estresse dos animais e dos próprios vaqueiros. Aqui, então, a questão principal é minimizar a reatividade e, consequentemente, o risco de acidentes.

 

Portanto, lotes enxutos, adequados às proporções dos currais (que também não precisam ser enormes) são os mais adequados. “Geralmente o pessoal lota os currais, deixa abarrotado. Isso torna muito difícil a realização dos manejos e muito estressante para os animais. É quando acontecem os acidentes”, lembrou Paranhos, referindo-se às situações em que um animal pula sobre o outro ou deita de costas, por exemplo.

 

São acidentes como estes que, além de colocar em risco a vida dos animais (tanto os que estão sendo vacinados quanto os demais do mesmo lote) e dos peões, atrasam demais o manejo, em pelo menos meia hora a cada vez que ocorrem – e são bem comuns. Por isso, segundo o professor Mateus e também de acordo com toda a comunidade de pesquisadores de bem-estar, é altamente recomendável aplicar a vacina com o animal imobilizado no tronco de contenção individual. O tempo para finalizar o procedimento, por incrível que pareça, é o mesmo do que o realizado no tronco coletivo, justamente pela diminuição dos desvios de comportamento.

 

Em um trabalho desenvolvido em uma fazenda durante a vacinação, o professor Paranhos constatou na prática a informação acima. A contenção dos animais um a um viabilizou justamente um manejo como o classificado lá no primeiro parágrafo: com mais qualidade, mais controle e menos risco. Em teste, Paranhos pediu a uma mesma equipe, bem treinada, para realizar a vacinação de lotes de mesmo tamanho, mas um em tronco coletivo, outro com as reses contidas individualmente. “O resultado final foi que o tempo foi igual. […] No começo houve alguma resistência, mas depois perceberam os benefícios e já tem uma adesão gradativa”, celebrou Mateus Paranhos.

 

Tabela 1 - Tempo vacinação normal x racional

Tabela 2 - Ocorrências na vacinação

Trabalho do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (Grupo Etco) demonstra benefícios da contenção no tronco individual em relação ao coletivo.

 

Para disseminar mais ainda as descobertas de seu grupo de pesquisas, o professor está validando novas informações que facilitarão o trabalho do pecuarista em situações parecidas, como o tamanho do curral. “Temos uma proposta interessante, que já está sendo validada no campo, que é a de que currais podem ser pequenos, desde que tenham estrutura de piquetes no entorno para acomodar os animais na chegada e na saída”, revelou.

 

ORIENTAÇÕES GERAIS

Podemos resumir as dicas do professor Paranhos da seguinte forma:

 

– Planejamento: esta etapa envolve formação de lotes (adequada ao tamanho do curral para não ficar lotado nem forçar trabalho como os mesmos animais das 06h da manhã até o fim da tarde, por exemplo), preparar a equipe (incluindo possíveis treinamentos, indicar contenção individual), checar o estado de conservação de equipamentos e instalações (pistolas, agulhas, tronco);

 

– Compra e conservação: certificar-se de ter adquirido o volume correto de doses, transportá-las e conservá-las em condições adequadas;

 

– Execução: condução tranquila do pasto ao curral, deixar sempre acessível aos animais água, sombra e ração, não superlotar as instalações (piquetes ao redor do curral são boa alternativa).

 

“A orientação é geral para todos os manejos realizados no curral: fazer com que a condução desde o pasto seja mais fácil e ágil. Aqui, agilidade não significa pressa, mas eficiência”, reforçou o pós-doutor em bem-estar animal.

 

PEGA BOI LADRÃO

O professor da Unesp adiantou que trabalha agora em três frentes novas de pesquisa. Uma é relativa ainda a um estudo sobre sanidade, que envolve o treinamento de equipe de peões para evitar a formação de abscessos vacinais e, possivelmente, reduzir a zero a sua incidência. “O projeto está focando a parte da higiene, da sanidade e condições do processo”, sintetizou.

 

Outro trabalho recente diz respeito à descoberta de alternativas para o uso da marca de fogo. “Buscamos reduzir o uso até porque o Brasil é muito criticado mundo afora por conta disso. Vamos achar outras práticas”, antecipou.

 

Por fim, Paranhos disse que avança agora em pesquisa que estuda as condições de manutenção de bovinos em confinamento. “A nossa preocupação hoje é saber porque existe ainda um percentual animais, entre 15 e 25%, que não apresentam desempenho adequado. É o chamado boi ladrão, que só dá prejuízo”, finalizou Paranhos.

 

+ Clique e assista na íntegra à entrevista de Mateus Paranhos ao Giro do Boi

 

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3 respostas para “O pecuarista e a estratégia do pediatra: como assegurar a eficiência na hora de vacinar”

  1. Alesssandra disse:

    Ótimo conteúdo, me ajudou bastante.. Muito obrigada por ter compartilhado conosco.

  2. Carol Rainner disse:

    Adorei o site, meus parabens!

  3. Aurea Rainner disse:

    Ameii o blog, meus parabens!!

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