Convergência entre qualidade e produtividade: o talento inato da pecuária de corte brasileira

Eu sempre acreditei que a pecuária é uma atividade abençoada. O primeiro motivo é a oportunidade de produzir um dos mais nobres alimentos para o homem. E, entre tantas outras razões para eu admirar tanto a cadeia produtiva, está o fato de que, em certo ponto, para o pecuarista aumentar a produtividade (e consequentemente aumentar também renda e competitividade) significa melhorar a qualidade do produto oferecido ao consumidor. Vamos ver abaixo.

Nesta semana, para fechar o conteúdo de uma série de balanços anuais que o Giro do Boi está promovendo, busquei dados sobre o desempenho da carne bovina em 2016. Encontrei, em fontes distintas, números diferentes, mas todos evidenciando a queda do consumo per capita.

Os dados são convergentes ao que disse em junho, ao próprio Giro do Boi, o engenheiro agrônomo e sócio da consultoria MB Agro, Alexandre Mendonça de Barros:

“Foi um ano muito ruim de consumo interno. Retrocedemos mais de vinte anos no consumo per capita. Os dados preliminares de abate, e não dá para a gente confirmar totalmente, mas estão bem alinhados com o que a gente monitora, indicam consumo entre 27 e 28 kg por habitante, vindo do ano passado dos 30, que por sua vez veio dos 36, até um pico de 39 (kg/per capita/ano). Portanto foi uma queda muito expressiva”.

+ Relembre a entrevista de Alexandre Mendonça de Barros ao Giro do Boi

Mas em meio a este período adverso e muito desafiador para a atividade da pecuária de corte, um motivo em especial despontou para a celebração do setor: algumas linhas de carne com valor agregado apresentaram bom desempenho nas vendas, a despeito da inflação que levou boa parte do poder aquisitivo do brasileiro.

O volume de comercialização dos chamados PVAs, ou Produtos de Valor Agregado, ainda é baixo em relação ao total do consumo interno. Para a JBS, representou 14% de todo o volume negociado no Brasil, mas abocanhou uma fatia quase duas vezes maior em relação ao faturamento. É a comprovação de que “paladar não volta atrás”.

O programa de fidelização de lojas varejistas da empresa, o Açougue Nota 10, que trabalha exclusivamente com linhas de valor agregado, também apresentou sua evolução. Até outubro, foram 544 lojas fidelizadas contra as 450 no início do ano, um avanço de mais de 20%. Já o volume de produtos comercializados pelo programa cresce há dois anos seguidos: 20% em 2015 na comparação com 2014 e, em 2016, já acumula crescimento de 10%  sobre o ano anterior.

Por isso, a indústria anunciou que 2017 será o ano do valor agregado para a carne bovina. O primeiro a destacar o tema foi o diretor executivo comercial da companhia, Artêmio Listoni, também em depoimento ao Giro do Boi.

+ JBS elege 2017 o ano dos produtos de valor agregado

Anteriormente, o professor da Esalq/USP Cláudio Haddad, já havia apontado a importância da produção de qualidade para o pecuarista em entrevista exclusiva ao programa.

“Produtividade é fundamental. Se você pegar nos últimos 30 anos, os preços dos produtos agrícolas, praticamente todos, vêm caindo ano a ano, de forma que o produtor tem que se proteger desta queda de preço com produtividade. […] A única forma que você pode fugir da produtividade, e são casos específicos, é quando você tem um valor agregado do produto elevado. E, mesmo assim, se procurar produtividade, você tem ganhos cumulativos neste sentido”, disse Haddad ao Giro do Boi.

Aí está o melhor cenário possível. Mais produtividade, renda e competitividade sincronizadas, fidelizando um consumidor disposto a premiar a qualidade recebida.

Claro, na prática é um grande desafio apontar os esforços de uma cadeia tão heterogênea como a pecuária de corte brasileira para uma mesma direção. Mas é um movimento que já começou. Veremos mais para frente.

3 respostas para “Convergência entre qualidade e produtividade: o talento inato da pecuária de corte brasileira”

  1. […] + Convergência entre qualidade e produtividade: o talento inato da pecuária de corte brasileira […]

  2. DANIEL CABRAL BARBOSA disse:

    BOA TARDE JOSÉ NETO, TUDO BEM?
    MUITO INTERESSANTE ESSE ARTIGO.
    GOSTARIA DE LHE ENVIAR UM ARTIGO QUE ESCREVI NA DEFESA DO MBA SOBRE O MERCADO DE CARNES PREMIUM.
    PARA QUAL E-MAIL EU PODERIA MANDAR ?
    ABRAÇO

  3. […] de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, sou acostumado com churrascos feitos com carne de muita qualidade, até pelo preço um pouco mais acessível quando comparamos com São Paulo, por exemplo. A […]

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