Rumo à era digital ou da informação

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja.

A humanidade já passou pela era da agricultura, pela era industrial e hoje transita pela era digital, em que a principal ferramenta é o conhecimento. Há quem caracterize a evolução do desenvolvimento tecnológico humano em quatro Eras Industriais: 1ª Era: mecanização, máquinas a vapor e tecelagem; 2ª Era: produção em massa, linha de montagem e energia elétrica; 3ª Era: automação, computador e eletrônicos; e 4ª Era: sistemas cibernéticos, internet das coisas e redes.

No início do século XX, os agricultores constituíam o maior grupo de trabalhadores, seguidos pelos empregados domésticos. Nessa época, uma família que contasse com apenas três serviçais era considerada de classe média baixa, o que dá uma ideia da quantidade desses servidores à disposição das famílias mais abonadas. Atualmente, uma família de classe média enfrenta problemas para manter um empregado doméstico e se pudesse contratar mais, não haveria disponibilidade, pois esses empregados migraram, principalmente, para a indústria e para os serviços.

A era digital surgiu a partir dos anos 70, com o desenvolvimento dos microprocessadores, da fibra ótica, do computador pessoal, da engenharia genética e do estabelecimento das redes de computadores. Essas ferramentas promoveram uma revolução que impactou todas as áreas da atividade humana, incluindo a agricultura.

O passado não garante o futuro. Os agricultores já devem ter-se conscientizado de que não dá mais para sobreviver no campo repetindo os modelos de produção do passado. O mundo mudou e as pessoas precisam mudar ou seus negócios serão inviabilizados. O agricultor que não acompanhar essas mudanças poderá ser forçado a mudar – não os processos produtivos do campo – mas mudar-se do campo para a cidade, onde será mão de obra pouco qualificada e, portanto, mal paga. Não é, certamente, o caminho que ele deseja trilhar.

O atual momento tecnológico sinaliza para o uso da máquina no lugar do homem. O custo e a escassez de mão de obra operária no campo está indicando esse caminho. Máquinas pensantes, capazes de realizar mais trabalho, em menor tempo, a um custo menor e fazê-lo com mais perfeição ocuparão o espaço que era do homem. A agricultura de precisão, cuja adoção está em franco crescimento, busca esse caminho. O produtor poderá maximizar a produção e o lucro da sua lavoura, utilizando máquinas equipadas com sofisticados mecanismos eletrônicos capazes de “dialogar” com o solo e informar o agricultor sobre suas reais necessidades de insumos.

Estamos transitando por um período de intensa atividade na área da informática, a qual dinamizou o fluxo de informações pelo mundo. A era industrial, dependente da força física dos operários, está chegando ao fim e dando lugar para a era da tecnologia, esta dependente de mão de obra que prima pelo conhecimento, não pela força física. Já temos drones entregando encomendas, carros sem motorista e tratores sem tratorista. Só não temos, ainda, agricultura sem agricultor e certamente nunca teremos, pois a máquina, por mais sofisticada que seja, não é capaz de pensar. Alguém tem que pensar por ela. E esse alguém é o agricultor. Mas não é qualquer agricultor. Precisa ser uma agricultor que evoluiu com a máquina e seja capaz de opera-la. Máquinas que dispensem a inteligência humana ainda estão distantes; ou não!

Nos primórdios da era industrial (século XIX), o operário era pouco mais do que um escravo do dono da indústria, tanto pela baixa remuneração percebida, quanto pelas muitas horas trabalhadas, razão pela qual Marx previu como inevitável uma revolução violenta do operariado contra os donos das fábricas, em prol de uma vida mais digna do trabalhador. Não foi o que aconteceu, graças ao aumento da produtividade da indústria, cujos benefícios foram canalizados, principalmente, para elevar o salário do trabalhador, que também foi beneficiado com a redução da carga horária.

Como consequência, a violência preconizada por Karl Marx não aconteceu e a transição da era do operariado para a era tecnológica, foi pacífica.