Produzir alimentos, a vocação do Brasil

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

Todo país tem fortalezas e debilidades no curso do seu desenvolvimento. É importante identificá-las para aproveitar-se das fortalezas e contornar as fraquezas para crescer. A fortaleza do Brasil é o agronegócio. O pais parece vocacionado a ser um grande fornecedor de comida para os demais países do mundo. Tem muita terra apta e disponível, principalmente no Bioma Cerrado; assim como condições climáticas favoráveis para produzir o ano todo, na maior parte do território; água para irrigar em períodos ou regiões com deficiência hídrica, se compensar; e domina as tecnologias para produzir com eficiência em regiões tropicais de baixa latitude.

O setor agrícola é exemplo de dinamismo

Produzir com eficiência em climas tropicais não é a regra. O Brasil pode ser considerado uma exceção, pois estão localizados no entorno do equador as nações mais afetadas pela desnutrição, dada a baixa produtividade dos seus campos de produção, em boa medida porque os povos dessas regiões desconhecem o manejo mais apropriado dos processos produtivos para as condições tropicais com baixa latitude.

O Brasil figura como 3º maior produtor e 2º maior exportador de alimentos. É 3º na produção de milho, 2º na produção de soja, carne bovina, carne de frango e etanol e 1º no açúcar, café e suco de laranja. Mais do que isto, é o 1º exportador de soja, café, suco de laranja, carne de frango e carne bovina. Também figura como 2º maior exportador de milho e etanol. Estes números sugerem que o Brasil é mais importante como exportador, do que como produtor de produtos agrícolas, visto que sua população é muito menor que a dos demais grandes produtores de alimentos (China, EUA e Índia), estes obrigados a consumir toda ou grande parte da sua produção para alimentar sua gigantesca população.

Se bem o Brasil é hoje reconhecido como um importante produtor e exportador de alimentos, este papel é relativamente recente, visto que na década de 1970 ele importava comida para atender as demandas da sua população, o que se afigurava como incompreensível, dado o potencial do país, não só para autoabastecer-se, mas para gerar, inclusive, excedentes exportáveis.

Atualmente, o Brasil se autoabastece com folga em quase todos os alimentos que consome e gera enormes excedentes exportáveis, os quais respondem por 40 a 50% das exportações totais do país e geram superávits anuais de cerca de US$ 80 bilhões (www.agricultura.gov.br). Os superávits gerados pelo agronegócio nestes primeiros 18 anos de século XXI, se acercam a US$ 1 trilhão, indicando a importância que o Agro assumiu no contexto da economia brasileira.

A relevância do agronegócio não está apenas no setor primário (produção dentro da porteira), mas também no setor secundário (indústrias de processamento e de transformação) e no setor terciário (transporte, armazenagem e comercialização). É a cadeia produtiva do agronegócio que está deixando o Brasil respirar, contribuindo com cerca de 19 milhões de empregos ou 20% do total de empregos do país (Centro de Estudos de Economia Agrícola da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz de Piracicaba, SP – Cepea/Esalq)

Imaginar o Brasil sem os aportes do agronegócio, seria voltar no tempo e enxergar o produtor rural com a cara do Jeca Tatu. Seria um país pior, muito pior.