O pior conselho pode vir do vizinho

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

Qual agricultor não gostaria de faturar mais com a comercialização da sua safra de soja! Mas como identificar o momento certo para comercializar o produto e auferir os maiores lucros? O mercado geralmente aconselha vender logo após a colheita o montante necessário para saldar os empréstimos e outras pendências financeiras e faturar o restante aos poucos, ao longo do ano todo aproveitando os picos de alta. Mas como prever que o preço de um determinado momento é pico de alta, o qual deveria ser aproveitado para vender parte ou toda a safra!

Aparentemente estamos transitando por um período de preços razoáveis da soja no mercado interno, pois estamos na entressafra brasileira e o Brasil é um grande consumidor de soja. A próxima colheita está distante e o Brasil, aparentemente, vendeu mais soja do que podia, na ânsia por gerar receita para enfrentar o sufoco financeiro. Importar soja dos EUA que acabam de colher a safra? Nem pensar. O grão chegaria aqui a um preço maior do que pagar mais pela soja nacional.

O atual momento poderia ser adequado para vender, mas tem gente achando que vai subir mais. E é verdade, mas também pode cair, como já aconteceu em temporadas anteriores e muitos produtores amargaram prejuízos históricos. Lembrem-se de 2004 e 2015, quando muitos produtores não aproveitaram a oportunidade de vender a soja no pico de alta e foram forçados, posteriormente, a comercializá-la por muito menos.

Muitos produtores se guiam pela opinião dos vizinhos, porque o que menos querem é vender por um preço menor que o deles e sofrer “bullying” dos que esperaram e conseguiram um valor maior. Mas e quando os vizinhos esperaram e venderam por menos? Talvez eles prefiram esconder essa realidade e mentir sobre o real valor recebido na transação.

Não restam dúvidas de que o preço da soja já esteve maior e o custo de produção menor. Mas conforme ensina a sabedoria popular, tudo o que sobe desce, seja avião ou o preço do grão. Ainda não temos a bola de cristal para determinar quando o teto de preço alcança o seu máximo para vender. O que sabemos é que o produtor que aproveita vários momentos de alta, vendendo aos poucos ao longo do ano todo, fecha a safra conseguindo uma média de preço favorável, que, embora sendo inferior ao pico de alta, é suficiente para cobrir os custos e deixar algum lucro.

O preço de qualquer produto depende da oferta e da procura. Pelo lado da oferta, a lógica do mercado pareceria indicar que os preços atuais não estão ruins, dados os três anos consecutivos (2014/15, 2015/16 e 2016/17) de super safras nos dois principais produtores mundiais. Nas três safras acima referidas, os Estados Unidos produziram 107, 108 e 117 Mt e o Brasil 96, 97 e 114 Mt, respectivamente. A produção mundial, por sua vez, avançou 69 Mt (282 Mt na safra 2014/15 vs. 351 Mt na safra 2016/17) no período: 23 Mt /ano. Mesmo assim, o preço de mercado não despencou porque, igual que a produção, também cresceu a demanda.

Estados Unidos e Brasil respondem por quase 70% da oferta e a China por cerca de 60% da demanda e continua ampliando suas compras para atendimento do seu enorme plantel de suínos e aves, mesmo em tempos de queda do PIB.

Deixe o vizinho zoar e gargantear sobre os lucros que não teve. Garanta o teu ganho modesto, mas verdadeiro.