É sustentável a produção agrícola do Brasil

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

Produzir sustentavelmente, conforme o próprio termo indica, significa que o recurso natural que sustentou o avô, o pai e o filho, precisa manter-se produtivo para a sobrevivência do neto, bisneto e tataraneto. Nenhuma geração tem o direito de abusar do recurso que recebeu produtivo, desfrutá-lo irresponsavelmente e repassá-lo para a geração seguinte em condições piores do que o recebeu.

Via de regra, os processos produtivos da agricultura brasileira são sustentáveis. Nossa produção agrícola, no correr do último meio século, cresceu mais em função do aumento da produtividade do que pela incorporação de novas áreas de cultivo. Contrastando, por exemplo, a área e a produção de grãos do Brasil de 1990: 34 milhões de hectares (Mha) e 58 milhões de toneladas (Mt), com a área e a produção de 2017: 61 Mha e 240 Mt, fica evidente que se tivéssemos, em 2017, a mesma produtividade de 27 anos atrás, seriam necessários 81 Mha adicionais para colhermos a mesma quantidade de grãos. Esta é a área teoricamente salva do desmatamento pelo aumento da eficiência produtiva dos campos de produção brasileiros.

Brasil investe em produção sustentável. Foto: RRRufino

A soja foi o motor dessa transformação, dado o aumento da demanda mundial pelo grão, em função do crescimento do consumo de proteínas animais, como resultado do aumento da renda per capita da população.
O Brasil não merece as críticas sistemáticas que tem recebido de nativos e de estrangeiros, quanto aos métodos de exploração agrícola do seu território. A evolução do Código Florestal do Brasil foi essencial para proteger nossas florestas do desmatamento. Contudo, outro aspecto positivo deve ser enfatizado: segundo levantamento da Embrapa Monitoramento por Satélite, tomando como base os registros do CAR (Cadastro Ambiental Rural), mais de 20% da vegetação nativa brasileira é preservada dentro das propriedades, sem nenhum pagamento ao proprietário por essa renúncia involuntária de área produtiva. Em outras palavras, o agricultor brasileiro reconhece a importância de se preservar as matas nativas. Mas, não podemos esquecer que também é importante proteger outros ativos ambientais, como o solo e a água, por exemplo.

É notório reconhecer que na visão do cidadão comum, a sustentabilidade está sendo muito encarada como um ativo ambiental, mas, tão importante quanto o ambiente, estão os aspectos sociais, os tecnológicos, os trabalhistas e os econômicos. Uma propriedade agrícola ambientalmente bem administrada, mas que escraviza seus colaboradores ou uma propriedade altamente produtiva, mas que fecha o ciclo de uma safra com prejuízos, porque seus custos de produção ultrapassaram o valor de comercialização da colheita, são insustentáveis e não garantirão o futuro de netos, bisnetos e tataranetos.
E as ferramentas utilizadas na busca por sustentabilidade não param com o estabelecimento do CAR. Num futuro próximo, a preocupação com a sustentabilidade chegará às gôndolas dos supermercados, onde estarão disponíveis mecanismos de averiguação sobre a sustentabilidade da cadeia produtiva de cada produto oferecido pelo estabelecimento, considerando todos os aspectos possíveis.