Manejo de coberturas vegetais e controle de plantas daninhas na soja

Elemar Voll,  pesquisador da Embrapa Soja

O controle das invasoras deve ser pensando dentro de um contexto que envolva os outros manejos da cultura. Também é preciso planejamento com cultivos anteriores e posteriores à soja, que devem ser planejados para aumentar a biomassa na lavoura e favorecer maior atividade biológica e liberação de substâncias alelopáticas, para maior controle das invasoras, resultando em maior produtividade das culturas.

Buva em lavoura de soja. Foto: Fernando Adegas

São exemplos os manejos com braquiárias, consorciadas ou não com soja, milho ou sorgo, em plantio direto. Essas práticas têm reduzido infestações de buva e capim-amargoso, via a liberação de ácido aconítico (C6H6O6), substância alelopática. A cobertura do solo com a braquiária tem controlado um maior número de espécies de plantas daninhas, como a trapoeraba, o carrapicho-de-carneiro, o amendoim-bravo, a corda-de-viola, guanxuma e o picão-preto.

A introdução da cultura da soja em áreas de pastagens degradadas, seguido por braquiárias, também podem ter esses benefícios, principalmente a redução no uso de herbicidas, inseticidas e fungicidas.
As palhadas de trigo (ou aveia) resultam em sombreamento e liberação de substâncias alelopáticas, como os ácidos cumárico e ferúlico, que reduzem a emergência de diversas espécies daninhas e o seu período de sobrevivência no solo, reduzindo as ações de controles anuais pela complementação (reduzida) com herbicidas.

Comparando os manejos de semeadura direta e convencional (em soja/trigo) a sobrevivência das gramíneas capim-marmelada e capim-colchão, em sistema de plantio direto foi reduzida de 10 para 5 anos e de 7 para 5 anos, respectivamente; para espécies de folhas largas, como caruru, de 9 para 5; carrapicho-de-carneiro, de 9 para 7; picão-preto, de 4 para 3 anos.

Manejos de dessecação da aveia-preta (e do milheto), na pré-semeadura da soja, têm apresentado melhores resultados quando ocorre até 15 dias antes da semeadura, controlando diversas espécies daninhas. Aplicações próximas à semeadura podem resultar em competição posterior com a cultura. Níveis de controle aumentaram com até 9 t ha-1 de palha. Alguns genótipos de plantas de aveia tem apresentado maior potencial alelopático, não sendo observado efeitos sobre a soja.

Coberturas com milheto antecedendo a cultura da soja destaca-se como uma das principais culturas de cobertura verde e produção de palha, devido ao seu rápido desenvolvimento vegetativo, pois atinge 5 a 8 t ha-1 de matéria seca aos 45 a 60 dias após a semeadura, proporcionando excelente cobertura do solo e controle de plantas daninhas, como guanxuma capim-marmelada, picão-preto, apaga-fogo e carrapicho-de-carneiro. O efeito supressor do milheto é menor que o da aveia, embora produza maior quantidade de massa.

O sorgo (safrinha), consorciado ou não com a braquiária, destaca-se como alternativa na rotação de culturas. Genótipos de sorgo reduziram a densidade e o crescimento de guanxuma, picão-preto e capim-marmelada, aos 30 dias após a semeadura, indicando reduções de 41% de infestação e de 74% de massa seca total das plantas daninhas. Resíduos de palha sorgo-de-guiné e forrageiro reduziram os crescimentos das partes aérea e radicular da soja e o rendimento de grãos. Podem causar dano à cultura de trigo em sucessão, sem afetar a produção. Entre as substâncias alelopáticas liberadas pelo sorgo, sorgoleone (SGL) é o principal composto e o tanino. O nabo forrageiro, como cobertura de inverno, caracteriza-se pelo crescimento inicial extremamente rápido, cobrindo o solo em 30 a 45 dias, abafando as plantas daninhas desde o início do seu desenvolvimento.

Coberturas de cana na sua colheita mecanizada, sem a sua queima prévia, deixa cerca 17 t/ha de resíduos no solo, podendo impedir o crescimento de várias espécies de plantas daninhas, contribuindo para o menor uso de herbicidas e maior quantidade de matéria orgânica no solo, favoráveis à produção de soja.
Finalizando, apenas através de medidas de controle por diferentes tratos culturais, numa sequência de anos, pode-se prover a redução dos períodos de sobrevivência das diversas espécies daninhas no solo. Essas medidas podem reduzir custos e problemas no meio ambiente.