Pneus a partir do óleo de soja?

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

As novidades tecnológicas nos surpreendem a cada dia. Em tempos remotos, precisou-se de séculos e até milênios para que a humanidade pudesse desfrutar de um avanço tecnológico revolucionário, como o telefone, a eletricidade, o automóvel, o avião, entre outros. Muito se comenta que, num futuro não muito distante, muitos empregos desaparecerão por causa de máquinas inteligentes, operadas por robôs ou outras ferramentas, dispensando o ser humano. Carro sem motorista já está a caminho. Trator sem tratorista e colhedora sem operador, também.

Fonte: Goodyear

Muitos argumentam que, rei morto, rei posto, intuindo que a eliminação de um posto de trabalho gera outro. Só que mais sofisticado e, portanto, exigente de maior qualificação do empregado. Quem perdeu o emprego de taxista, por exemplo, talvez não esteja à altura para operar um sistema que oriente os automóveis sem um motorista. É necessário capacitação para essas novas atividades. Muitos cidadãos estão alertas, antecipando-se às mudanças e realizando cursos e treinamentos para realizar funções novas que possivelmente surgirão.

Particularmente na área agrícola, quem trabalha com soja poderia ficar menos preocupado, visto que, provavelmente, não faltará mercado para este produto nas próximas três décadas. A crescente demanda pelo grão da oleaginosa não cessará tão cedo, dada sua grande utilização na alimentação de animais domésticos e peixes, assim como, para gerar biocombustíveis ou produtos da oleoquímica. No entanto, isto não garante o emprego para quem trabalha com o produto. Vários processos de produção poderão dispensar total ou parcialmente os operários, pelas razões acima expostas.

A soja nos surpreende pelas suas múltiplas utilidades. Já conhecíamos mais de uma centena de produtos originários da soja, mas não sabíamos da possiblidade de produzir pneus de alta qualidade a partir do seu óleo misturado com borracha, conforme recentemente informado pela mídia. Segundo diversas reportagens, nos Estados Unidos, uma joint venture entre a United Soybean Board (espécie de conselho dos produtores de soja daquele país) e a fabricante de pneus Goodyear, desenvolveram um pneu competitivo, de alta qualidade e mais aderente a pistas de rolamento adversas, como as encontradas nos invernos daquele país.

É interessante salientar que a iniciativa do estudo teve como objetivo buscar alternativas ao uso do óleo de soja, o qual poderia encalhar no mercado, visto que a soja é produzida primordialmente para gerar farelo proteico utilizado na fabricação de rações para animais, sendo seu óleo um subproduto.
Em passado recente, houve preocupação semelhante, quando se buscou evitar a possibilidade de encalhe do óleo não utilizado para uso doméstico, transformando-o em biodiesel para ser adicionado ao óleo diesel em percentuais crescentes. Quinze milhões de toneladas do grão já estão sendo utilizados para este fim. Agora, as produções de soja cada ano maiores preocupa pela possibilidade de geração de grandes estoques de óleo sem destino. A saída poderá vir da fabricação de pneus, substituindo parcialmente o petróleo, combustível fóssil promotor do aquecimento global e que constitui a principal matéria prima do pneu.

O pneu de soja já está disponível nos Estados Unidos em mais de 40 tamanhos e adequado para atender as necessidades de 77% dos modelos de automóvel.  Com este novo mercado, a demanda e o preço da soja poderão subir. O produtor agradece.