O mercado da soja e as recentes supersafras

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

De acordo com estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab ), em 2018, o campo promete nova supersafra, talvez um pouco menor do que aquela de 2017, quando as condições climáticas foram excepcionais e a produção de grãos alcançou a estratosférica marca de 238 milhões de toneladas (Mt), 52 Mt a mais do que os 187 Mt da safra anterior. Embora a expectativa não seja repetir a excelente produção da safra 2016/2017, seu resultado não deverá ser muito inferior. No último levantamento da Conab (janeiro de 2018), a safra 2017/2018 foi estimada em, aproximadamente, 228 Mt, valor 4% menor. Contudo, essa estimativa não é definitiva e será atualizada mensalmente, de acordo com novas estimativas obtidas pela companhia. Excepcionalmente, poderemos, até, colher a mesma quantidade de grãos da safra passada ou, até, mais.

Caso ocorra, a queda da produção nacional de grãos será liderada pelo milho 1ª safra, o qual teria sua produção reduzida de 30 Mt para 25 Mt (para os mesmos 5 Mha de 2016/2017), consequência do tempo seco e frio nos meses de setembro e outubro na região sul e pelo milho 2ª safra, que poderá ter sua produção reduzida em razão do atraso da semeadura e da colheita da soja.

Também, considerando os riscos da semeadura do milho 2ª safra fora da sua melhor janela, o produtor poderá ter menor produtividade optando por menor investimento em sementes de qualidade e fertilizantes. Segundo estimativas do IBGE, a produção do milho total cairia 14% (97,6 Mt em 2017 para 84 Mt em 2018), contrastando com as previsões da Conab, cuja estimativa de queda seria bem menor: 6% (97,8 Mt para 92,2 Mt). Estimativas são estimativas e são muito dependentes das condições climáticas (mais ou menos favoráveis), da metodologia utilizada e do avaliador.

Um aspecto relevante na produção nacional de grãos é que houve uma queda expressiva da área cultivada com o milho 1ª safra (10,2 Mha na média do período 1992/2000 para 5 Mha atuais), cuja área salva foi majoritariamente incorporada no cultivo da soja. A maior área cultivada com milho passou a ser o da 2ª safra, cujo cultivo começou com modestos 146 ha na safra 1979/1980 e alcançou os 12,1 Mha na safra 2016/2017.

Segundo estimativas da Consultoria AgRural, possivelmente não haverá queda na produção de soja nesta safra, podendo, até, haver aumento se as condições climáticas continuarem favoráveis, pois a área cresceu 2,5% (aumento de 0,9 Mha), passando de 33,9 Mha em 2016/2017 para 34,8 Mha na safra atual.
É racional a inquietação de muitos produtores de soja sobre a possibilidade de formação de estoques gigantes e queda acentuada nos preços de mercado, como resultado dos contínuos aumentos da área cultivada e das consequentes supersafras ocorridas nos EUA e no Brasil (os dois principais produtores mundiais da oleaginosa), no transcurso dos últimos anos. Pela primeira vez, em 2018, segundo estimativas do USDA, a área semeada com soja nos EUA superará a do milho.

Os preços de mercado sofreram queda em anos recentes, mas não o tanto quanto se poderia esperar pelo volume produzido. Isto deve-se, principalmente, ao aumento da demanda, a qual cresceu em paralelo com a produção como resposta ao aumento da renda per capita da população, levando o cidadão a comer menos grãos e mais carnes, cuja principal matéria prima proteica é a soja.

Além da renda per capita maior, também cresceu a população e os idosos estão tendo vida mais longa, dando continuidade ao consumo e contribuindo para a manutenção dos preços em níveis razoáveis.