OGM, não há razões para temê-los

Amélio Dall’Agnol e Alexandre Nepomuceno, pesquisadores da Embrapa Soja

A polêmica em torno dos impactos positivos e negativos da produção e consumo de produtos modificados geneticamente (OGMs) continua, apesar das garantias oferecidas pelos resultados favoráveis das pesquisas e por mais de 20 anos de consumo sem problemas. A tecnologia dos transgênicos tenta justificar-se sob três pilares: preservação do ambiente, aumento da produção para combater a fome e redução dos custos de produção.

Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Soja – Foto: RRRufino

Os OGM são uma novidade tecnológica que precisa tempo para ser absorvida pela sociedade, assim como acontece com a implementação de qualquer novidade tecnológica, onde existem riscos e benefícios, ganhadores e perdedores.

Os OGMs são organismos vivos, vegetais, animais ou mesmo micro-organismos (fungos e bactérias) que tiveram o seu DNA transformado, podendo expressar características que não poderiam ser obtidas por meio do melhoramento genético convencional, ou seja, cruzamentos e seleção. Visualmente, na maioria das vezes não diferem dos seus similares convencionais, mas são diferentes, pois sofreram alteração no seu material genético por via de sofisticadas técnicas de manipulação genética em laboratório, que não ocorrem naturalmente. Por meio dessas ferramentas é possível extrair um gene do DNA de uma espécie (doadora), o qual confere uma característica de interesse, e transferi-lo para outra espécie (receptora), que passaria então a expressar a característica desejável presente no organismo doador.
Foi isto o que ocorreu para a obtenção da soja RR resistente ao herbicida Glifosato, o primeiro produto transgênico amplamente conhecido dos brasileiros. Nesse processo, um gene de uma bactéria de solo (Agrobacterium) foi identificado com potencial para alterar o metabolismo de uma planta de soja uma vez inserido em seu DNA e, dessa forma, torná-la imune à ação desse herbicida. Da mesma forma, o desenvolvimento da soja Bt, resistente ao ataque de várias lagartas, foi obtida a partir da transferência de um gene do DNA de uma bactéria (Bacillus thuringiensis) para o DNA da soja. Pimba, as plantas de soja portadoras desse novo gene ficaram protegidas do ataque de várias lagartas que atacam a soja, como a falsa medideira e a helicoverpa, entre outras.
O desenvolvimento de produtos OGMs começou nos Estados Unidos nos anos 70, mas sua produção comercial deslanchou a partir dos anos 90. Segundo dados do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA), entre 1996 e 2015, a área global ocupada por cultivos transgênicos evoluiu de 1,7 milhão de hectares (Mha) para 179,7 Mha, crescimento superior a 100 vezes em cerca de 20 anos; a mais rápida adoção de uma tecnologia na história recente da agricultura.

Soja, milho e algodão, pela ordem, dominam o mercado mundial dos cultivos transgênicos. Estados Unidos, Brasil e Argentina, também pela ordem, são os países que mais cultivam plantas transgênicas e são questionados por setores conservadores da sociedade, cujas manifestações sinalizam contornos ideológicos. Segundo o Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) do Brasil, a população em geral não tem maiores restrições ao consumo de medicamentes transgênicos, mas oferece resistência ao consumo de alimentos modificados geneticamente. Não parece haver justificativas para tal, mas acontece. Entretanto, quando esta população é apresentada a produtos transgênicos por ela consumidos sem seu conhecimento (insulina, hormônio de crescimento, vacinas, ou mesmo o detergente e sabão em pó usado diariamente, que são produzidos por fungos ou bactérias transgenes), as pessoas começam a confiar mais na tecnologia e a liberar-se do preconceito.

Além disso, ressalte-se que qualquer OGM passa por rigorosas análises de risco nos laboratórios, previamente à liberação comercial do produto. Posteriormente, é submetido a outra batelada de testes a campo nos países em que se pretende usar a tecnologia, como no caso do Brasil, onde a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão composto por renomados cientistas da área, avaliam tecnicamente questões relacionados à biossegurança do produto.

Para os que defendem a transgenia, a veem como desejável porque ajuda no aumento da produtividade, pode enriquecer os alimentos com componentes nutricionais, e, em muitas situações, torna os produtos mais baratos, além de beneficiar o ambiente reduzindo o uso de agrotóxicos. Já para os que questionam os transgênicos, o produto é perigoso, pois ainda não se conhecem os seus efeitos sobre a saúde humana e nem o impacto que pode causar ao ambiente. Por esta razão, a produção e comercialização de OGMs continua polêmica, embora pareça inevitável que vençam os argumentos dos que são favoráveis à continuidade da sua produção e consumo. Resultados de pesquisas da Organização Mundial da Saúde respaldam tal decisão.
Embora admitindo como válida a preocupação da sociedade com os potenciais riscos de produzir e consumir OGMs, o debate mais necessário talvez não seja este, mas os potenciais riscos representados pela concentração da propriedade intelectual das sementes transgênicas em mãos de apenas três empresas (Syngenta/ChemChina, Monsanto/Bayer e Dow/Dupont) e outras quatro, conhecidas como as quatro irmãs (ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus), controlando o mercado global de grãos.
Tudo o que é novo causa polêmicas. Com os OGMs não poderia ser diferente. Mas a ciência tem demonstrado aos incrédulos com provas irrefutáveis, que o consumo de produtos GM é segura para humanos e animais e não compromete o ambiente.