Problemas no estabelecimento e crescimento de plantas de soja na safra 2017/18: possíveis causas

Alvadi Antônio Balbinot Junior, pesquisador da Embrapa Soja

Na safra atual, em várias regiões do Brasil, tem-se observado vários problemas no estabelecimento e reduzido crescimento das plantas de soja, o que pode diminuir o número de plantas produtivas por hectare e o número de vagens por planta – dois componentes de rendimento de grãos. Além disso, as falhas de estande e o crescimento lento das plantas de soja dificulta o controle de plantas daninhas na lavoura.
A emergência e o crescimento inicial da comunidade de plantas de soja de uma determinada cultivar são determinados, basicamente, por três fatores: 1) qualidade das sementes; 2) operação de semeadura (qualidade da semeadora e como esta é utilizada); e 3) qualidade integral do solo (atributos físicos, químicos e biológicos). Esses fatores podem ser manejados pelo produtor. Por outro lado, o quarto fator não é influenciado pelo manejo – o clima. Nesse contexto, é necessário que o produtor acerte nos três primeiros fatores, minimizando o efeito de possíveis adversidades climáticas.
Em várias regiões, o início dessa safra foi marcado pelo atraso na ocorrência de chuvas. Nesse cenário, muitos produtores optaram em realizar a semeadura no “pó”, o que não é indicado, já que a falta de água, associada a altas temperaturas do solo prejudica os processos fisiológicos das sementes e a sobrevivência do Bradyrhizobium (bactéria responsável pela fixação biológica do nitrogênio), o que pode se refletir em menor emergência, nodulação deficiente e baixo crescimento de plantas. Há situações em que a semeadura foi realizada em solos secos na superfície, mas com um pouco de água abaixo de 5 a 10 cm, permitindo a germinação apenas das sementes posicionadas em maiores profundidades, ocasionando falhas de estande e desuniformidade de tamanho de plantas (Figura 1). Essa situação gera plantas dominantes e dominadas, o que limita a obtenção de altas produtividades. Nessa circunstância, o uso de sementes com alto vigor, o posicionamento uniforme das sementes em profundidade de 4 a 5 cm e, sobretudo, solos com adequada estrutura física e com cobertura minimizam o efeito negativo da carência de água e alta temperatura do solo (Figura 2 e 3). É o manejo minimizando o efeito do clima ruim!

Figura 1. Emergência desuniforme de plântulas, gerando plantas dominadas, com baixa capacidade produtiva

Foto: Alvadi Antônio Balbinot Junior.

Figura 2. Emergência de plântulas de soja em solo bem manejado

Fotos: Alvadi Antônio Balbinot Junior.

Figura 3 .  Emergência desuniforme das plântulas em solo inadequadamente manejado

Fotos: Alvadi Antônio Balbinot Junior.

Após o período de estiagem, em várias regiões ocorreram chuvas intensas na segunda quinzena de outubro e início de novembro, muitas vezes associadas com baixas temperaturas e radiação solar. Como grande parte dos solos cultivados apresenta baixa taxa de infiltração, houve acúmulo de água nos sulcos de semeadura, mesmo que não visível pelo produtor, criando um ambiente com pouca disponibilidade de oxigênio às raízes da soja, muitas vezes perdurando por vários dias. Esse ambiente pobre em oxigênio prejudica a nodulação e provoca morte de células nas raízes, facilitando a infecção por fungos de solo – por exemplo fitóftora. Para reduzir esse tipo de problema, o mais indicado é a inserção de culturas no sistema que produzam elevada quantidade de raízes para estruturação do solo e palha para proteção do solo, como é o caso de braquiárias, consorciadas ou não com o milho. Além disso, em muitas lavouras houve perda de solo e plantas em razão da erosão, ainda muito presente no Brasil. É o manejo inadequado do solo potencializando o clima ruim (chuvas torrenciais + baixa radiação solar + frio). Na tentativa de estimular o crescimento das plantas, muitos produtores têm aplicado vários produtos na lavoura, como fertilizantes foliares e estimulantes de crescimento, o que, na maioria das vezes, tem aumentado o custo de produção sem benefícios significativos.
Por fim, é necessário salientar que se as condições climáticas em dezembro e janeiro forem favoráveis à soja – principalmente chuvas regulares – é possível que tenhamos uma boa safra, mesmo com todos os problemas enfrentados na implantação e no início do ciclo, já que a soja é uma cultura anual que apresenta razoável capacidade de recuperação durante o ciclo.