Por que adotar o plantio direto

Amélio Dall’Agnol e Pedro Moreira da Silva Filho, pesquisadores da Embrapa Soja

Quem já era agricultor nos anos 70 dificilmente esquecerá das visões chocantes das enxurradas que arrastavam ladeira abaixo a camada mais fértil das suas lavouras, abrindo voçorocas pelo caminho. Era prática no final do inverno e início da primavera o agricultor iniciar as operações de preparo do solo para o plantio das culturas da temporada (soja e milho, principalmente). O campo era lavrado e gradeado uma ou duas vezes, deixando a camada superficial do solo pulverizada. Vinham as chuvas intensas de primavera e estimadas 20 toneladas/ha de solo eram arrastadas para a parte mais baixa do campo de produção, assoreando rios e lagoas. Perdia-se a parte mais fértil da lavoura. Uma lástima.

No início da década de 1970, no entanto, alguns agricultores pioneiros do Paraná (Rolândia, Castro e Ponta Grossa) deram início ao estabelecimento de um sistema novo de cultivo da terra, em substituição ao sistema convencional vigente. Iniciava-se a prática do Sistema de Plantio Direto (SPD) no Brasil. A partir dessa iniciativa, transcorreram cerca de 20 anos (até início da década de 1990) até que o sistema se estabelecesse em definitivo como uma das ferramentas tecnológicas mais impactantes para o desenvolvimento agrícola brasileiro. O começo foi difícil dada a falta de máquinas apropriadas para o cultivo direto e pelo alto custo do herbicida glifosato – muito utilizado para a dessecação da lavoura pré plantio. No início da década de 1990, no entanto, a vigência da patente do herbicida venceu e o preço caiu significativamente, estimulando o avanço na adoção do SPD.

O SPD tem enormes vantagens sobre o convencional. Além de reduzir significativamente a erosão da camada superficial do solo – a mais rica em nutrientes – ele possibilita antecipar os plantios de verão, principalmente a 2ª safra do milho e do algodão, mas também da 1ª safra da soja e do milho nas regiões onde se cultivam cereais de inverno. Outra vantagem do sistema, não menos importante, é o efeito da palhada deixada sobre o solo no controle de plantas daninhas e na redução da evaporação da água do solo, permitindo que estiagens moderadas sejam melhor suportadas. Mais de 100 milhões de hectares (Mha) são cultivados no SPD no mundo. EUA, Brasil, Argentina, Canadá, Austrália e Paraguai, pela ordem, são os países que mais o utilizam. No Brasil, o SPD é utilizado em mais de 32 Mha ou cerca de 50% da área cultivada do país. No estado do Paraná ela alcança os 90%.

Mas nem tudo são flores com o uso do SPD. É importante esclarecer que o sistema precisa vir acompanhado das boas práticas associadas ao sistema: não revolvimento do solo e realização de rotação de culturas para formação de abundante palhada de cobertura. Muitos produtores afrouxaram as rédeas e estão mexendo no solo com o objetivo de descompactá-lo, calcareá-lo ou eliminar invasoras resistentes e, pior, estão reduzindo ou eliminando os terraços para facilitar a operação das máquinas, cada vez maiores e mais, operando as máquinas no sentido da declividade do terreno. Resultado: a erosão está voltando e o patrimônio e lucro do agricultor estão escoando pelo ralo.

O cultivo do milho depois da soja, no mesmo ano agrícola, em vários anos consecutivos não é rotação, é sucessão. Mas, se bem essa prática não corresponda à rotação desejada, o cultivo da braquiária em consórcio com o milho safrinha ameniza a prática indesejada, de vez que ela incrementa a formação de palhada, promove uma maior cobertura do solo, dificulta a emergência das invasoras e retêm mais água da chuva, essencial para períodos de estiagem porque retarda os efeitos da escassez de água.

Segundo estudos da Embrapa, o consórcio milho/braquiária reduz em 50% o tempo necessário para que o solo acumule 1% de matéria orgânica, em comparação com o milho safrinha isolado. Dado o sistema radicular abundante da braquiária, ela ajuda na descompactação do solo e na infiltração da água das chuvas.

Antes da implementação do SPD, a construção de terraços nas lavouras era a principal ferramenta com a qual o agricultor contava para reduzir a erosão do solo. O SPD não veio para substituir os terraços, mas para integrar-se a eles no processo de manejo e conservação do solo.