Semente, a chave do sucesso

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

O fruto de uma planta de trigo ou de soja leva o nome genérico de grão. Mas o grão que é produzido para semear e produzir uma nova lavoura é diferenciado e se denomina de semente. Grão não é semente. Embora ele se pareça com a semente da mesma espécie, a semente precisa possuir certas qualidades (elevados vigor, poder germinativo, pureza, sanidade, entre outras) para ser reconhecida como tal.

Semente de boa qualidade indica o início de uma boa safra. Foto: RRRufino.

Muitos agricultores optam por semear o grão comum no lugar da semente e pensam estar levando vantagem porque não gastam com a aquisição da semente de produtores credenciados. Da mesma forma, servir-se de “sementes” clandestinas ou piratas, que não têm os controles exigidos pelos órgãos fiscalizadores, pode resultar no estabelecimento de uma lavoura com falhas de germinação, plantas com menor vigor, maturação desuniforme e, no final das contas, baixa produtividade. E há outra consequência importante pelo não uso de sementes certificadas: se ninguém paga pela semente, que banca os custos do desenvolvimento de novas variedades, as empresas de melhoramento desaparecem. Sem elas, não haverá novas variedades no futuro e o produtor será prejudicado: um tiro no pé.

A semente vale pela sua genética, pela qualidade do seu grão, pela pureza física e varietal, resultado de um processo diferenciado e criterioso de produção. A economia que o produtor faz plantando “sementes” pirata ao invés de sementes de qualidade comprovada é, muito provavelmente, menor do que o prejuízo que ele poderá ter com a queda na produtividade pelo uso de grãos travestidos de semente.  Essa potencial redução na produtividade dificilmente será percebida pelo produtor. É um prejuízo oculto, dissimulado. Resultados de pesquisa demonstram que a utilização de sementes de elevado vigor propiciam produtividades 10% a 30% superiores às sementes com baixo vigor, condição mais comumente encontrada em “sementes” pirata. Mas o produtor não percebe isto porque ele não tem como comparar. Como saber a produtividade que obteria com a semeadura de sementes certificadas, se ele só utilizou “sementes pirata?” Não estamos afirmando que toda semente pirata tem baixa qualidade, mas dada a utilização de menos controles no seu processo produtivo, estão mais sujeitas a apresentar menor qualidade.

Outro alerta para o agricultor não gastar à toa, é atentar-se para não utilizar em excesso os aditivos oferecidos pela indústria, de utilidade duvidosa, ou até, de nenhuma utilidade. A indústria química, que cada vez mais se confunde com a indústria de sementes, está transformando a semente em burro de carga dos seus produtos químicos e, dessa forma, repassa ao produtor, junto com a semente: fungicidas, inseticidas, nematicidas, bioestimulantes, fertilizantes, enraizantes, entre outros, que ele não pediu, mas vê-se estimulado a aceitá-los – e pagar por eles – para ter acesso à variedade que ele escolheu.

A lógica do mercado é cruel. Pode mais quem for mais esperto. O negócio da indústria é vender e faturar, enquanto que o produtor quer produzir e gostaria de, também, faturar. Mas o seu lucro pode ficar pelo caminho pelos custos de produção desnecessários.
Começar bem uma nova safra implica em utilizar insumos de qualidade, começando pela semente.