Megafusões e aquisições sufocam o produtor rural

O que o produtor rural sente na pele toda safra, um estudo minucioso da rede catalã Grain traduziu em grandes números: as megafusões, aquisições e consolidações corporativas resultaram em um processo de concentração de poder no agronegócio sem precedentes, o que tem sufocado agricultores e pecuaristas ao redor do planeta. Este é, talvez, o pano de fundo mais relevante para o futuro dos produtores, já que a dominação do antes e do depois da porteira por megaempresas reduzirá ainda mais a renda e as margens no setor.

Sobre isso, há pouquíssima discussão no governo e no Congresso. Assim como nas boas universidades e consultorias sérias do agro. Muitos parlamentares, aliás, tiveram suas campanhas bancadas por essas megacorporações. Nem é preciso dizer que o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, controla uma grande empresa do setor. A Amaggi é brasileira, claro. Mas ainda assim é uma corporação que figura neste jogo global.

O estudo da rede de apoio a pequenos agricultores (íntegra aqui) revela uma enorme concentração nos segmentos de sementes, defensivos, fertilizantes e máquinas agrícolas, além de processamento e distribuição. As novas tecnologias de dados no campo, diz o texto, foram capturadas por essas corporações e estão aprofundando o fenômeno. A forte integração vertical submete serviços de dados por satélite, informação genômica, maquinaria e informações de mercado a um mesmo teto. Sem entrar em qualquer mérito ideológico, isso tem alterado o processo agropecuário.

Desde 2015, “o maior ano das fusões e aquisições”, ocorreu uma série de negócios de alto nível, ligando vários elos das cadeias. Alguns exemplos: a fusão de US$ 130 bilhões dos gigantes agroquímicos Dow e DuPont, a compra da Monsanto pela Bayer por US$ 66 bilhões, a aquisição da Syngenta pela ChemChina por US $ 43 bilhões e sua fusão planejada com a Sinochem em 2018. Esses negócios vão colocar até 70% da indústria agroquímica nas mãos de apenas três empresas. Nos fertilizantes, houve a fusão das líderes canadenses Potash Corp. e Agrium. Completam a lista a oferta da Kraft-Heinz pela gigante Unilever e a aquisição da Whole Foods Market pela varejista online Amazon.

Essas megacorporações já são “muito grandes para alimentar” o mundo (“too big to feed”), afirma a Grain – um trocadilho com o mote da grande crise financeira de 2008 (“too big to fail”), em referência aos grandes bancos globais. Os dados mostram que 10 empresas controlam 73% das sementes no mundo hoje. Apenas 5 mandam em 84% do mercado de defensivos. Outras 10 detêm 65% do poder em máquinas e informação de dados. Nos fertilizantes, 10 controlam 28% do mercado. Em produtos farmacêuticos animais, 10 mantêm controle sobre 75% do mercado. Além disso, apenas 4 empresas tem, a depender do tipo, entre 53% e 75% do market share do abate de animais. O mercado de pesca, o top 10 manda em 45% do total.

A “financeirização” da agropecuária tem sido um importante motor de consolidação corporativa em vários segmentos. Mas, para além de tecnologias físicas (drones) e científicas (edição genética), é a tecnologia da informação que está por trás dessa consolidação do setor. É o seu mais novo e poderoso rumo. O “big data” conecta insumos (sementes, fertilizantes e agroquímicos) à maquinaria agrícola e os varejistas aos consumidores. Esse é o ponto fundamental.

A pesquisa e a inovação recuou à medida que as empresas dominantes compraram os inovadores e os recursos foram deslocados para modos de investimento mais defensivos. Por aqui, vivemos isso com a quase total saída da Embrapa em sementes, por exemplo. A pressa em controlar a genômica vegetal, a pesquisa química, a maquinaria e a informação do consumidor via “big data” orienta as megafusões. Isso pode exacerbar desequilíbrios de poder, elevar a dependência dos produtores e criar mais barreiras contra a competição no setor rural. E onde estão as agências reguladoras do mercado (Anvisa, SDA?) e da concorrência, como o Cade?

Como receita, a Grain prescreve: 1) mudança para a inovação diversificada e descentralizada, conhecimento localmente aplicável e tecnologias de acesso aberto – e um novo parâmetro de “tecnologia ampla” – para obter os benefícios do “big data” para todos; 2) cadeias de fornecimento mais curtas, modelos inovadores de distribuição e troca – como iniciativas da economia solidária (as cooperativas são isso na sua essência) ajudariam a contornar e desconsolidar o mainstream das cadeias de suprimentos – o que deve, em última instância, ser apoiada por políticas públicas integradas.

 

 

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