Carta Insumos – Agora é a hora: de olho no milho!

Caro produtor,

Em outros textos conversamos sobre a sazonalidade dos preços do boi(clique aqui)do bezerro (acesse aqui)e da soja (veja aqui).

Você lembra o que é sazonalidade dos preços? Ela é igual às estações do ano. No caso de Mato Grosso, poderíamos dividir o ano em duas estações: o verão e o “inferno”. O verão é quente chuvoso e o “inferno” é quente e seco. Nos preços também temos “estações bem marcadas”. Existe aquele período do ano onde há tendência de alta de preço e aquele onde há baixa.

Para as commodities isto geralmente é marcado pelo período da safra e entressafra. É claro que, como para o clima, há anos que chove mais que outros, há algumas tempestades fora de época ou mesmo um El Niño. Porém, um “padrão” nos ajuda a planejar a produção, como o período que devemos iniciar o plantio. A sazonalidade dos preços pode ser usada no mesmo sentido.

Estamos chegando em um momento crucial para o milho e, por isto, as notícias sobre o assunto não param de sair. Não sei se você lembra, mas nesta época, em 2016, tivemos um problema climático sério e houve uma redução expressiva na produção. Em valores de hoje, isto é, considerando o efeito da inflação, em abril de 2016, o preço médio do Indicador do Milho foi R$50,91. O maior para o mês, desde o início da série história do Cepea, em 2004.

O que afeta o preço do milho – O mercado do milho é muito mais volátil que o mercado do boi, muda muito mais rapidamente. As grandes empresas ficam atentas às divulgações dos relatórios do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) para se prepararem e se posicionarem. Já o produtor, muitas vezes, deixa para comprar este insumo quando precisa.

Mundo – Ainda que a maior parte do milho produzido no Brasil fique no mercado interno, aproximadamente 70%, é um mercado mais suscetível aos acontecimentos mundiais do que o mercado do boi. De forma bem direta, caro produtor, você precisa ficar atento à situação da safra dos principais exportadores. De acordo com o USDA, do total exportado no mundo, 32% é dos Estados Unidos, 22% do Brasil, 19% da Argentina e 14% da Ucrânia – este último País, pela abertura ao capital estrangeiro, tem aumentado rapidamente sua produção e competitividade[1]. A China, ainda que seja o segundo maior produtor, é importador deste insumo.

A safra americana começou a ser plantada e deve se intensificar nas próximas semanas. Por isto, nestes próximos dias, o mercado fica atento aos relatórios de perspectivas de safra do USDA e qualquer alteração climática no “cinturão do milho americano”, pode alterar as cotações dos preços em Chicago, afetando também os preços no Brasil.

A safra argentina já sabemos que está comprometida em virtude da seca pela qual passam as principais regiões, tem produtor por lá que não conseguirá pagar os custos de produção. Mas, muito do comportamento sazonal dos preços do milho no mercado interno é determinado por nós, brasileiros.

Brasil – O Brasil é um país “abençoado por Deus e bonito por natureza” e, por isto, conseguimos produzir o milho duas vezes por ano. A produção da “safrinha”, segunda safra, que era “pequena”, já é mais que o dobro da primeira safra. Com isto, as “estações do ano” do preço deste insumo respondem muito claramente ao volume produzido na segunda safra, veja o Gráfico.

Figura 1.
Sazonalidade dos Preços do Milho

Fonte: Elaborado por Crespolini, com base nos dados do Indicador do Milho (Esaql/BM&F

Na linha azul, o gráfico apresenta como tende a se comportar estatisticamente os preços do milho (Indicador Esalq/BM&F). A linha vermelha apresenta a base 100 do índice, que pode ser considerado o preço médio do ano. Abaixo da linha, são os meses em que os preços tendem a ser mais baixos que a média, e, acima, os preços mais altos.

Historicamente, é entre os meses de abril e setembro que os preços tendem a ficar abaixo da média anual. Julho, justamente o auge do volume ofertado da segunda safra, registra o menor número índice, sendo 13 pontos percentuais abaixo de janeiro, quando tende a ocorrer o maior preço.

O que os pecuaristas geralmente fazem é comprar o milho de acordo com a necessidade. Para quem compra de setembro para frente, tende a encontrar preços superiores ao que poderia ter sido obtido em julho. Se você não possui onde estocar na sua propriedade, uma alternativa é utilizar as informações anteriores para negociar o preço, ainda que a retirada do produto seja realizada em um momento posterior. Fazer este planejamento é igual acompanhar os dados climáticos e as estações do ano.

Este índice não é uma previsão para o que vai ocorrer em 2018. Em anos de quebra de safra, por exemplo, os preços podem não se comportar desta maneira. No entanto, o índice mostra, estatisticamente, como se comportam os preços na maior parte dos anos e safras. De uma semana para a outra não é possível prever o que vai ocorrer com os preços, tampouco garantir se julho terá mesmo o preço mais baixo do ano. Mas acompanhar as próximas semanas são cruciais. A hora de acompanhar este mercado é agora, especialmente os acontecimentos do plantio da safra americana e o desenvolvimento da brasileira. Se não houver quebras de safra, a probabilidade da sazonalidade dos preços se aproximar do comportamento da linha azul do Gráfico é maior.

METODOLOGIA – O modelo matemático utilizado foi proposto por Hoffmann (2002), na série histórica do Indicador do Milho (Esalq/BM&F), considerando dados diários de agosto de 2004 a março de 2018. Traduzindo os termos matemáticos, este modelo busca normalizar as variações de série de preços, diminuindo os efeitos abruptos ou atípicos de uma base de dados, são as quebras de safras de alguns anos específicos. Busca assim, um valor matemático que expressa o comportamento de preços em período típicos, onde não há choques de oferta, nem demanda.

[1] Se você quiser saber mais sobre o crescimento da produção de milho neste País, sugiro a leitura do texto do pesquisador do Cepea, Dr. Mauro Osaki: https://www.cepea.esalq.usp.br/br/opiniao-cepea/ainda-somos-competitivos-em-relacao-aos-nossos-concorrentes.aspx