A guerra do Feijão e as novas estratégias de organização

Qual seria o consumo de Feijão se hoje estivesse sendo vendido R$ 4,50 por quilo? Certamente seria o mesmo, ou seja, pouco mais de 3 milhões de toneladas. Do ponto de vista social, certamente esta afirmação é questionável. Até mesmo do ponto de vista ideológico. Vamos lá: “é a lei da oferta e da procura”, repetem com ares de sábios até o mais apedeuta dos picaretas. Não é tão verdade quanto parece, pois se você tem no varejo alguém com poder de desequilibrar as relações, já não estamos mais tratando de leis de mercado. Raramente quem manda é a oferta quando temos estiagens e secas que eliminam parte da produção. O produtor hoje poderia receber algo em torno de R$ 2,50/2,80 e o restante da margem seria para beneficiamento, transporte e impostos e as margens da indústria e do varejo. Isto daria margem para todos. Daria margem para que se trabalhasse o marketing do Feijão. Ocorre que o varejo se aproveita da falta de articulação do setor do Feijão para massacrar, garantindo suas margens. Alguns  produtores veem os empacotadores como os inimigos que esfolam, já os empacotadores veem no produtor alguém que tem outras oportunidades de “fazer dinheiro” e assim salve-se quem puder.

Esses empacotadores seguem espremidos entre a produção e o varejo. Esta é uma das razões que levam o mercado a trabalhar em ondas. O consumidor, cada dia mais necessitado de comprar o que houver de mais barato, dá início ao processo que acaba por afetar a todos. Boa parte dos empacotadores tem enfrentado um varejo cada vez mais poderoso e insensível a qualquer argumento que não seja preço. O problema é que pouco importa se a classificação do Feijão é T-1 no pacote, mas dentro está um produto fora de tipo. Eles querem preço e com isso marcas que não têm o que perder colocam Feijões extremamente fracos para que sejam promovidos nas redes. Outras tantas vezes o empacotador tradicional é coagido a baixar o preço para competir com estas marcas que no passado eram chamadas de talibãs, pois agem como terroristas que atacam e “explodem” a marca e depois criam outra e voltam a trabalhar novamente da mesma forma. Não é uma questão de ser pequena a empresa, mas de não encontrar a estratégia correta diante de varejistas multinacionais com compradores extremamente bem preparados e que têm margens muito diferentes do que tinham antes de serem vendidos para multinacionais. A venda de produtos básicos era feita com pequenas margens. Em muitos supermercados era considerado imoral ter margens abusivas em produtos tão básicos.

Há também a questão de impostos do Feijão que precisam ser eliminados de norte a sul do país. Em momentos como este, em que vemos produtor garimpando e tendo dificuldades para vender por R$ 1,85/2,00, este tipo de assunto precisa ser levantado e debatido.  O PNF – Preço Nacional do Feijão – tem observado que alguns negócios registrados demonstram exatamente isso. E podemos mudar essa situação? Sim, nós podemos mudar. Aliás, o ser humano pode, em conjunto, fazer muito. O CBFP Conselho Brasileiro do Feijão e Pulses junto com demais entidades, como o IBRAFE, apoiam o MAPA na construção do Plano Nacional do Feijão, que acredita-se, será um marco na história do setor que deve ser creditado ao zelo do Ministro Blairo Maggi ao Secretário Eumar Roberto Novacki e do Assessor Ricardo Cavalcanti. Além disso, o Fórum do Feijão este ano, em Curitiba, Paraná de 06 – 08 de junho, reunirá empacotadores, corretores e produtores juntos, do mesmo lado do balcão, e buscarão uma forma de fazer valer  o sacrifício e o risco que é produzir e colocar nas gôndolas o Feijão nosso de todos os dias dos brasileiros.

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