Artistas entendem de artes; agricultores e pesquisadores, de agricultura…

Governo fiscaliza, cientistas descobrem, médicos avaliam, industriais fabricam …

…cada um no seu quadrado, senão dá errado !

O bom senso ensina que a livre manifestação de todos sobre todos e tudo é salutar. Porém o mesmo bom senso cobra responsabilidade e limites nas manifestações. Cabe lembrar um sábio provérbio: sua liberdade termina onde começam os direitos da outra pessoa.

Outro lado da moeda é a noção de humildade para saber até aonde ir na opinião sobre tema do qual não entende o suficiente para aprovar ou vetar.

Diversos artistas estão a desrespeitar esses limites ao se posicionarem nas redes sociais, com extrapolada pretensão, sobre tema que não conhecem o suficiente. Eles têm todo o direito de usarem vestimentas diferentes ou maquiagens variadas ou adotarem tipos de alimentos de sua preferência, mas não têm o direito de induzir pessoas a adotarem hábitos alimentares que querem impor aos outros.

Circula nas redes sociais recomendações de artistas conhecidos para que as pessoas se manifestem contra o projeto de lei que tem por objetivo modernizar a legislação sobre defensivos agrícolas, dentre as quais copiei duas delas: “se aprovado o PL 6.299/02, podem botar mais veneno em nossa mesa”. Uma outra afirma que “a proposta libera o uso amplo de agrotóxicos, resultando em mais veneno na nossa comida e mais prejuízo ao meio ambiente”.

Ora, isso não é verdadeiro. A verdade é que o referido PL não vai nem pode liberar mais ou menos agrotóxicos. Os órgãos com poderes para aprovar continuarão os mesmos. O objetivo é atualizar uma legislação de três décadas atrás, acrescentar o moderno conceito de análise de risco para ser considerado além do de perigo, unificar as agendas dos três órgãos responsáveis pela avaliação de cada produto,  dar  maior transparência aos trâmites burocráticos, colocar prazos para a apresentação dos pareceres técnicos e, assim, acabar com o atraso do Brasil em relação aos países desenvolvidos para analisar e decidir sobre aprovação ou não de um determinado defensivo agrícola. E mais, quase todos são produtos já em uso internacionalmente.

O que certas ONGs e determinados artistas não querem é que o Ministério da Agricultura possa coordenar a “agenda dos processos”, mesmo – sem alterar em nada – as competências da Anvisa e do Ibama. Porque isso pode economizar o tempo desnecessário gasto para a aprovação de um defensivo; mesmo que uma nova molécula não implique em risco aos consumidores ou ao meio-ambiente, possa “diminuir” a quantidade a ser usada ou que diminua custos de produção. Tudo segundo recomendações técnicas e prescrições dos profissionais da área, monitoramento e avaliações periódicas. Tal qual se faz na Europa, EUA, Japão, Austrália etc.

Produzir alimento seguro, nutritivo e em quantidade para abastecer a nação e exportar é tarefa que obedece a acordos internacionais, legislação e regulamentação nacional, regulamentação específica, embasamento científico, avaliação técnica e transparente de órgãos oficiais e privados.  As pessoas que se dedicam às artes não participam de nenhuma dessas atividades. Assim como os agricultores não participam das técnicas e modelagem de shows ou obras de arte. Ainda bem que as coisas são organizadas assim, pois dessa forma, há maior probabilidade de êxitos.

Mudar essa lógica é caminho certo para o insucesso de uma obra de arte ou de um produto agrícola. Certamente o show seria horrível e o alimento, inadequado.

Ainda bem que a maioria da população sabe disso, e pena que alguns artistas querem influenciar pessoas quanto a suas opções de alimentação (sofisticadas e mais caras ou não) como resultante de sua popularidade, e não por critérios técnicos-científicos.

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