Todos contra os produtores de leite?

Na verdade, nem todos são contra. A favor, estão:

– As milhões de crianças que – diariamente – consomem leite na merenda escolar, e os adultos e nutrizes que dependem dos programas sociais para acessar a este alimento rico e indispensável para a saúde e nutrição plena;

Quatro milhões de pessoas que trabalham ou dependem de 1,1 milhão de produtores de leite;

– As fábricas de rações, defensivos e equipamentos para a pecuária leiteira;

Os operários das fábricas de veículos transportadores de lácteos, de ordenhadeiras e de tanques de resfriamento cujos empregos dependem das encomendas dos produtores de leite;

Os caminhoneiros e as auto mecânicas que se dedicam ao transporte de lácteos,

– As 5500 prefeituras que perdem receita (sobre a produção e o consumo) com a desativação da atividade leiteira no município, e empregos de veterinários, zootecnista e técnicos locais;

Bolas, com tanta gente favorável à produção do leite, ainda assim o setor é menosprezado?

Quem é contra?

1.O ranço cultural dos “urbanitas” que são levados a acreditar que a pecuária é sinônimo de atraso, pobreza, maus tratos com os animais e destruição da natureza, o que desmotiva a tomada de decisões governamentais de apoio a um setor com tal imagem. A sentença é dura: tenha competitividade e se garanta no mercado. Esquecem que estamos no Brasil, onde é caro produzir e que há certos “setores protegidos” em que esta regra não vale. Numerosos segmentos recebem subvenções e isenções fiscais, as quais alcançaram US$283, em 2016. As não-competitivas indústrias de autopeças/automobilística, eletroeletrônica, têxtil, química, fármacos/laboratorial, etc., são protegidas contra as importações “predatórias” por tarifas altas e regras burocráticas. No caso de veículos e autopeças, vigem cotas para Argentina e Uruguai.

  1. Uma verdadeira campanha contra o consumo de leite, sem o rigor científico sobre os efeitos em pequena parcela da população que têm reação negativa ao seu consumo;
  2. Governos no afã de derrubar a inflação às custas de preços aviltantes aos produtores, facilitam importações predatórias de países com condições e custos de produção menores;

4.Sistema energético e de transportes deficientes e onerosos;

5.Impostos elevados que tornam mais caros nossos equipamentos, medicamentos e rações. Segundo a FIESP/IEL, a carga de impostos é de 19% para o leite fluído, 28% para o leite em pó, 17% no queijo, e 36% sobre a manteiga e tratores.

6.Crédito para investimentos dificultoso, demorado e com encargos financeiros maiores que nos países concorrentes (aproximadamente 4,5% de juro real);

7.Ausência de apoio governamental na comercialização (ao contrário da ajuda a grãos) e o inverso do que fazem a União Europeia, os EUA, a Nova Zelândia, o Uruguai e tantos outros, resultando na imposição de preços aos produtores pelas indústrias, em regime de oligopólios e até cartéis (preços que nem sempre são repassados aos consumidores);

8.Custo da folha de pessoal dobrado por obrigações trabalhistas,  diferentemente dos vizinhos;

9.Exigências descabidas e burocracia paralisante e custosa para Licença Ambiental ou autorização do Ministério da Agricultura para milhares de fábricas de queijos, não legalizadas;

Entretanto, a culpa não é apenas dos outros. O setor também tem suas falhas e dificuldades. A dispersão e a diversidade continental de produtores e a falta de representatividade política para pressionar os tomadores de decisão e os políticos ensaboados.

Ainda assim, há segmentos de produtores que conseguem sobreviver. Os grandes lavouristas no Centro-Oeste estão investindo em equipamentos modernos para a pecuária e, tudo indica que serão prósperos produtores, pois conseguem alimentar o rebanho com silagem de baixo custo, produzida por eles mesmos na segunda safra de milho ou sorgo; também os pequenos produtores no sul do País que não utilizam mão-de-obra assalariada, são cooperados e contam com o apoio do PRONAF e do PAA (quando há verbas). Os mais vulneráveis, e que desaparecerão em breve, são os médios produtores de leite, sufocados por altos custos.

De onde veio o tsunami atual ?

A crise conjuntural derrubou o preço do leite na entressafra ao menor nível de que se tem notícia para o período, inclusive abaixo do preço recebido pelos vizinhos produtores do Mercosul.

Houve coincidências de movimentos cíclicos, alguns previsíveis outros não. Os problemas climáticos na temporada 2016 diminuíram em dois bilhões de litros a produção daquele ano, catapultando os preços pagos aos produtores às alturas de R$1,67/l. Muitos comemoraram o que viria a ser ruim, como acontece também a outros setores. O espírito de manada desandou, os investimentos vieram, junto com eles as boas condições climáticas. Como se sabe, a produção de leite é de rápida resposta a preços. E assim, o primeiro semestre de 2017 assistiu a um aumento de oferta de 9%, comparativamente ao mesmo período do ano anterior, fechando o ano com 35,6 bilhões de litros.

Os preços cairiam para patamares razoáveis, porém, caíram demasiado devido às 148 mil toneladas de leite em pó importadas no ano 2016 (correspondentes a 21% da produção nacional), provenientes do Uruguai e Argentina (somente do Uruguai vieram 100 mil t, já que não aceitam limites razoáveis, só os argentinos concordaram). Tais importações, foram saudadas pela área econômica do governo, diplomatas e as indústrias que dominam o mercado uruguaio, em troca da renda dos produtores de leite brasileiros.

Para ajudar na formação da tempestade só faltava existir estoques acumulados nos países-sócios do Mercosul. E existia. A bolivariana Venezuela, que desesperadamente comprava montanhas de leite em pó, teve que suspender importações do produto diante de um tombo nos uruguaios de US$60 milhões não pagos, e outros US$49 milhões nos argentinos.

E para quem vender leite em pó, soro e queijos, se o preço do leite em pó integral no mercado internacional caíra de US$5,000.00 para /US$3,100.00/t ? Esses “competitivos” produtores só puderam despejar no Brasil, onde a tarifa de importação é zero e a fiscalização frágil, e há empresários dispostos a ir até lá, fechar negócios de ocasião, voltar ao Brasil e ganhar concorrências de prefeituras que querem leite barato, sem muito cuidado com a qualidade. Não por acaso, suspeita-se que houve prática de “dumping” nessas condições.

Mas, para completar uma tempestade perfeita, ainda faltavam os efeitos na demanda interna da “maior recessão econômica da História do Brasil”. E ela veio, derrubando o consumo, principalmente dos derivados de lácteos, com maior elasticidade do preço sobre a demanda.

Durante todo esse terremoto, que fez o governo? Praticamente nada.  Não há apoio do governo para ajudar a administrar o fluxo e carregar estoques, como se faz com o algodão, o milho, o trigo, etc. A Política de Garantia de Preços Mínimos não funciona para o leite.

O fim do poço chegou com o preço entre R$0,70 a R$0, 85 por litro, em muitas regiões do País.

Para piorar, o setor, desorganizado, também não tem interlocutor correspondente à sua importância e complexidade. O MAPA conta com um único funcionário dedicado ao tema leite (excluindo os da fiscalização). Enquanto isso, os “lecheros” argentinos contam com uma Subsecretaria Nacional de Produção de Leite, e, os uruguaios com o Instituto Nacional do Leite e um Departamento Nacional de Pecuária no Ministério. Na Nova Zelândia, há uma poderosa entidade que funciona praticamente como se fora “paraestatal”. Resultado, não por acaso, a Nova Zelândia é campeã mundial nas exportações de lácteos. O Uruguai exportou 90% do que produziu em 2016 (sendo que 86% do seu leite desnatado veio para o Brasil) e a Argentina faturou US$835 milhões. Isso para não falar da PAC/União Europeia para não nos humilharmos. E o Brasil gastou US$658 milhões com importações de lácteos, no mesmo ano.

Então, cá, é cada um por si? A indústria paga com até 60 dias de atraso. Ou seja, o risco de preços é do produtor não da indústria, pois a queda de preço é ajustada no pagamento futuro.

Ora, direis seus problemas decorrem da baixa produtividade. Escuta, houve um crescimento de 15,4% em produtividade no período 2010 a 2016 (segundo dados da EMBRAPA), e 50% da produção do leite provêm de 20% de produtores modernizados, e que não estão conseguindo cobrir seus custos de produção. Por outro lado, cerca de 80% são mini ou pequenos produtores, enfrentando não apenas as nove barreiras acima mencionadas, e que de forma digna, tem aí a renda mínima num trabalho árduo e honrado, em vez de Bolsa Família, Cesta Básica e outras esmolas humilhantes ao ser humano que se auto respeita.

Que sejam mais produtivos e tudo se resolve! Simples. Ao que acrescento: simplório, injusto, e politicamente irresponsável.

A situação deteriorou, para além do tolerável. Os produtores estão no ponto de fervura do leite, e em vias de virem a Brasília manifestar sua insatisfação. A FAEG reuniu 2000 produtores no dia 30 de setembro, em Goiânia; a OCB reuniu no dia 16 de outubro, outro tanto, na cidade de Prata, no Triângulo Mineiro, com a presença do ministro Blairo Maggi; e a FETAG organizou um protesto e bloqueio à passagem de veículos na fronteira com o Uruguai.

Por esse caminho, melhor organizados e diálogo firme, o setor conseguirá receber mais atenção da sociedade e do governo. O caminho é discernir problemas conjunturais dos estruturais, e administrá-los com sabedoria para superar a conjuntura desfavorável, aperfeiçoar nosso sistema produtivo e manter bom relacionamento com os países vizinhos.

Só assim será possível diminuir o número de contras a um segmento enorme de produtores, e criar condições adequadas para ganhos de produtividade, competitividade, abastecer o mercado interno e tornar o Brasil grande exportador de lácteos.

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