A arte de plantar ventos e colher tempestades e o leite em pó!

Foi a intransigência que derrubou as Torres Gêmeas!

Há anos estamos plantando uma tempestade na via láctea. Colheremos tempestade.

…“Não aceito discutir sobre dosar as exportações de leite em pó do Uruguai ao Brasil, e não se fala mais disso. Mas, escuta, construímos uma situação administrada, satisfatória, com outro sócio do Mercosul. Já disse não, e não se fala mais nisso”. Não é gravação, foi só para resumir a ópera, ou o impasse sobre o tema leite em pó com nossos vizinhos.

Consta que “El ministro de Ganadería, Agricultura y Pesca de Uruguay, señor Tabaré Aguirre, tendría dicho y lo repite que no acepta qualquier tipo de cota para las exportaciones de la leche en polvo a Brasil. No acepta hablar ni negociar sobre el tema. Y más, yo renuncio pero no acepto”. Só faltou acrescentar: y no se habla más de esto. El problema es vuestro y non de nosotros, entonces que derriben la torre del Mercosur.

Se ouvidos moucos aceitassem dialogar sobre plantio de ventos, necessidades e alternativas dos demais, certamente, não haveria necessidade de derrubar nada nem ninguém, inclusive um ministro de agricultura de um país-irmão, ou até pedirem, como já o fazem certas vozes, do nosso próprio ministro. Do lado brasileiro, também não pode haver radicalismo com os amigos e vizinhos. Nem acusar o Itamaraty de insensibilidade pela preferência à cadeia produtiva do leite uruguaio, em detrimento dos brasileiros, que aliás são os que pagam os salários deles. Também não dá para engolir a cantilena de certas autoridades que afirmam estarem aí para defender o interesse geral do Brasil e não deste ou daquele setor.

Uma das broncas dos produtores brasileiros contra nossas próprias autoridades se refere à dura cobrança “a este determinado setor e não de todos”, de que primeiro provem sua competitividade e depois venham conversar. Enquanto isso, a moeda de troca como o país-irmão é o leite. A pergunta que não cala é: quem e qual preceito legal delega a que autoridade para eleger os lácteos para subir à arena do Coliseu? Por que o Uruguai não pode exportar livremente veículos ao Brasil, e teve que se submeter a uma cota de 20 mil unidades/ano?

O tema é complexo. Estamos tratando do interesse direto de 1,1 milhão de produtores brasileiros de leite, dos quais nada menos que 800 mil são de famílias de pequenos e mini produtores, que dependem do leite para viver; e de um número igualmente importante do lado uruguaio. O tema se arrasta há anos, não se encontra uma solução negociada. Como resultante dessa situação, estamos plantando ventos para colher uma tempestade, que não será grande, mas derrubará alguns tetos.

Ora diria, o antigo e cabeça-dura personagem do nosso prestigioso jornal o Estadão. Lembram-se do Eremildo? Se fosse simples, Eremildo teria a solução imediata. O Uruguai tem poucos produtos para exportar para o Brasil, é competitivo nos lácteos e vende o produto a preço inferior ao nosso, por isso ganham o mercado. Deixem o mercado resolver. Vocês são contra o livre-comércio ou desconhecem o Mercosul?

Não Eremildo, não é simplório assim. Vejamos outros problemas similares e soluções construídas, ao longo dos anos, à moda sul-americana, para se conviver com eles, e evitar tempestades. Poderíamos citar os calçados, os têxteis, baterias e outros que foram solucionados mediante negociações exitosas para as circunstâncias. Vamos nos limitar aos mais recentes. A venda de carne de frango brasileira ao Uruguai foi limitada a uma mini cota de 200 toneladas/ano, imposta pelo Uruguai, neste caso esquecendo-se do livre-cambismo. Compreensivamente, os brasileiros aceitaram. E diria eu, fizemos bem. No caso do poderoso setor sucro-alcooleiro. Os brasileiros aceitaram uma tarifa disfarçada (atualmente beirando 21%) para o produto entrar no Estado-Parte da Argentina, ao arrepio das normas do Mercosul. Os brasileiros foram compreensivos com “los hermanos”. Sinceramente, acho que fizemos bem.  A tempestade começou a soprar forte no comércio de autopeças e veículos, para evitá-la, negociamos com os argentinos um acordo razoável, e se administrou o tema, civilizadamente. Acho que fizemos bem.

Na área de lácteos não foi diferente com a Argentina. O setor privado brasileiro agiu, e conseguiu levar o governo brasileiro a monitorar um acordo para limitar as quantidades de leite em pó da Argentina ao Brasil. Referido Acordo vige, e tem o limite anual de 54 mil toneladas/ano. Funciona, satisfatoriamente. Fizemos bem.

Mas, a paciência dos argentinos chegou ao limite. “A los uruguaios non hay límites, y así están ellos ocupando nuestro espacio en el mercado brasileno de la leche en polvo, por eso no podemos más renovar a este acuerdo”.

Mas, e o leite em pó, o soro de leite e os queijos? Aí os argentinos não aceitaram discutir. E o Uruguai, nem quer falar do assunto.  Não negociamos, vocês não obedecem aos sagrados textos do Tratado do Mercosul, não cabem cotas. E do lado das autoridades brasileiras, nunca acharam importante tratar do tema, aliás, sequer conhecem os problemas desses “leiteiros”. Acho que estamos fazendo mal. E olhe que os brasileiros estão aceitando se limitar apenas ao leite em pó.

E os argentinos têm razão. Os uruguaios exportaram 3.627 toneladas em 2007; e alcançaram 41.811 toneladas, num ano? Não, só no primeiro semestre de 2017. O Brasil absorveu 72% do total das vendas externas do Uruguai. Essa Brasil-dependência não bom nem para o Uruguai. Sem falar no soro de leite que vai de vento em pôpa.

Os até agora humildes produtores de leite do Brasil não querem proibir as importações de leite do Uruguai. Querem apenas um teto que seja razoável para ambas as partes da mesma maneira que se faz com a Argentina. E nem se pede para incluir na conversa soro de leite, queijos e outros subprodutos. Será que se fosse ao reverso, haveria intolerância também?

Ah, mas isso resolve os problemas estruturais e de longo prazo da pecuária leiteira brasileira? Já apareceram alguns a pedir que o governo (sempre ele) enxugue o mercado comprando, imediatamente, 50 mil toneladas de leite em pó. Com dinheiro de quem? Seriam necessários algo próximo de R$600 milhões do contribuinte brasileiro, que estaria transferindo impostos nossos para sustentar preços aos uruguaios e argentinos venderem aqui mesmo ?

Dosar volumes que o sócio do Mercosul nos vende não resolve todos os problemas, mas ajuda a administrar um deles que nos sufoca. O fluxo inconstante, com seus surtos de vendas ao longo do ano. Estamos falando dos excedentes de oferta contribuem para afundar ainda mais os preços pagos aos produtores. Não precisamos dizer, que preço é função da oferta e da demanda. E que foi a recessão que explica a queda no preço dos lácteos. Vamos abstrair, por ora, do tema da estrutura e competitividade da cadeia produtiva, do Custo Brasil, dos 40 pesos por litro que o produtor argentino recebe do governo, dos delirantes US$800 por vaca/ano que o suíço recebe, enquanto, cá, diminuímos do nosso preço 2.1% para formar o fundo da previdência dos outros (FUNRUAL), e uma longa lista que vai te cansar. Nem vamos lembrar que o preço ao produtor ora é alto ora despenca. Assim, fica difícil aumentar firme e progressivamente a produção para trombar ali à frente com preços que fazem derrubar de novo a oferta. O que é ruim também para o consumidor. Deixemos esses temas para outra conversa.

O Brasil produz atualmente algo em torno de 680 mil toneladas anuais de leite em pó. E importou, só no primeiro semestre de 2017, um total de 65.583 toneladas. Esse volume corresponde, aproximadamente, a 22% do que o Brasil fabrica deste produto. Não é pouco, nem aqui nem em qualquer país do mundo que tenha potencial de produção. Em 2016, só do Uruguai vieram 99.640 toneladas, e o número vai crescer nos próximos anos. Ou seja, o dobro do que pedem que o governo enxugue do mercado. E se cair o Acordo com os argentinos, por culpa dos uruguaios, as importações totais poderão chegar logo aos 50% do que o Brasil produz. O que já está complicado, vai piorar, desorganizando ainda mais a cadeia produtiva do leite. Aí já estamos falando de um público prejudicado que corresponde a meio milhão de pessoas acima da população do Uruguai. Por esse caminho, certamente, a tempestade derrubará alguma torre por aí.

Eremildo diria: Uai, por que brigam ao invés de sentar para conversar, civilizadamente, e encontrar soluções razoáveis para as partes?

Não, e não, e não se fala mais disso, ou eu vou embora!

Esses atrapalham, ao invés de ajudar na construção de torres civilizatórias; preferem derrubá-las.

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