Morrer de joelhos ou reagir com arma na fazenda?

Durante a vida inteira fui contra a posse de arma em qualquer lugar, inclusive nas fazendas. Mas a situação no campo está tão crítica que fui obrigado a rever, parcialmente, um princípio de vida pétreo. Sempre acompanhei a tese de que violência não se combate com violência. Mas também sempre me intrigou que, nada obstante a sabedoria de Cristo, nunca nos instruíram sobre o que fazer depois da terceira e quarta bofetadas na cara, e a ameaça – diante da família – de que na próxima vez o fulano voltará para matar você e seu filho. Um lembrete, Cristo e os apóstolos reagiram diante de mercenários que não respeitavam o Templo.

Para complicar um pouco mais o seu julgamento. Você também cantou quando criança, da mesma forma que eu e minha turma de sala, lá na escola primária em Orizona (GO), orgulhosos, perfilados em solenidades cívicas: …“Verás que um filho teu não foge à luta, nem teme que te adora a própria morte…

Sou avesso a violência. Sempre achei que a posse da arma induz a mais violência. Mas, a realidade impôs outra verdade. Os agredidos e violentados nas isoladas e distantes fazendas são roubados, os colabores e suas famílias violentados, muitos assassinados, e nenhuma providência efetiva acontece nem acontecerá, vinda de nenhuma parte … até a próxima cena de pavor, sobretudo para as crianças. Aliás, será que, ainda assim, elas não sentem vergonha de cantar nas suas escolas o verso afirmativo de que não fogem à luta?

Ora direis, há outras formas de luta. A lei e a ordem devem ser garantidas pelas autoridades legais responsáveis pelo tema. Ora bolas, vá contar essa história às milhares de vítimas que desanimaram de recorrer à polícia. Nem sequer há estatísticas confiáveis diante do medo de represálias. Chegamos à inversão das coisas no interior: “aqui estamos totalmente à mercê dos bandidos”. O cachorro de estimação é a primeira vítima diante do ataque.

Sejamos sinceros. Ninguém acredita que o nosso sistema de repressão ao crime seja capaz de proporcionar à população que vive nas fazendas o mínimo de segurança diante de ladrões e assassinos, sejam aprendizados de bandidos, isolados ou em grupo, bandidos conhecidos no município ou quadrilhas especializadas em roubar propriedades rurais. E muitos estão tomando providências cabíveis, inclusive se armando para a defesa.

Diante dessa situação insustentável, o senador goiano Wilder de Morais apresentou o Projeto de Lei Nº224/17, que em breve deverá ser votado, que autoriza a posse de arma na propriedade rural, mediante pré-requisitos para evitar uso indevido e os efeitos colaterais indesejáveis. Dentre as precauções estão: o atestado de autorização de porte de uma arma registrada e devidamente cadastrada, a localização da arma apenas na propriedade rural, o limite de idade (que penso deva ser de 30 anos) e a instrução de uso, inclusive de não-uso em circunstâncias específicas.

Só essa possibilidade resolverá a insegurança no campo? Não. Mas, você arrisca afirmar que não diminuirão os roubos? Claro que outras medidas são necessárias. Por exemplo, a criação de delegacias especializadas para o meio rural, em cidades ou grupo de cidades pequenas para combater os bandidos e as quadrilhas no meio rural. Os receptadores de animais e de mercadorias roubadas nas fazendas revendem sem dificuldade. Essas delegacias poderiam fazer o trabalho de inteligência para o desbaratamento das quadrilhas e dos receptadores, e um sistema integrado de informações e comunicações a todos os interessados no assunto.

Enfim, o tema é complexo, não existe uma solução simples, mas o que não pode continuar é a situação de medo de ser a próxima vítima e na situação humilhante e indigna de “morrer de joelhos, implorando a bandidos que não matem a sua família e seus colaboradores”

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